Comentário sobre Budismo Grego


Sobre a imagem e mais sobre o tema.

Gandhara foi um antigo reino. Hoje o lugar onde havia tal reino é o que chamamos de “Paquistão”. Talvez também parte do Afeganistão. Não se sabe exatamente “delimitar” o território de tal reino. Nesse lugar houve um encontro do Budismo Mahayana com Escolas Religiosas Helênicas. Desse encontro surgiu o que foi denominado “Budismo Grego” e/ou “Budismo Helênico”. Esse encontro produziu não somente “esculturas” Budistas ao estilo Gandhara, Grego-Budista. Apesar de que mesmo as esculturas já nos diz muito sobre o que foi o Grego-Budismo, por exemplo, essa escultura nos conta a história do sonho de Maya.

É natural que algumas escolas budistas possam acabar sendo esquecidas com o tempo. Ou deixarem de existir historicamente em certo sentido. Contudo, o que disso não é possível deduzir seria: as Deidades Gregas – que foram alguma vez reconhecidas como Deidades Bodhisatvas – deixam de ser assim tratadas como tais apenas por tal escola budista, em certo sentido histórico, não existir mais.  De fato, o Budismo Grego deixou de existir em certo sentido histórico. No entanto, não sua influência e “absorção” que existe no Mahayana. É sobre um ponto específico dessa questão que quero comentar.

A discussão sobre se algumas Deidades Gregas são reconhecidas como “realizadas” do ponto de vista do Budismo Mahayana  deve se dar no reconhecimento do “fato histórico” de que esse “reconhecimento” já ocorreu.

Nós sabemos que, por exemplo, Hércules, Zeus, etc., eram em Gandhara reconhecidos como protetores do Buddha. Eram Guardiões do Dharma. Portanto, em algum sentido Dharmapalas, em algum sentido Bodisattvas, em algum sentido Budas. Zeus era visto como Vajrapani, [também] simbolizando o poder do próprio Budha (1) (2).

O ponto todo é que parece haver uma “fixação terminológica”  [que existe em alguns grupos] com o termo “Deus” , os quais reificam o termo “Deus” como se este termo tivesse apenas um significado – como se a palavra que significa “Deidade”, dependendo de como é utilizada, também não significasse “Deus” em Japonês, Tibetano (3) ou Sânscrito. Esse tratamento “reificador” do termo “Deus” nada mais é do que uma atitude não-natural, que toma esse termo de modo isolado, descontextualizado, arbitrário e dogmático.

(A discussão que se dá somente nesse nível e que evita o nível conceitual e etimológico não pode ser plausível. É preferível o nível que se dá da seguinte forma: qual é o significado/sentido mais razoável e/ou adequado do que queremos dizer/significar quando utilizamos esses signos e símbolos. Em suma, o que falta nesse tipo de atitude é “ascensão conceitual/semântica”, i.e., o que falta é a pergunta pelo uso dos termos em determinados contextos).

Sabemos que a tradição Budista de Ghandara reconheceu pelo menos alguns Theoi como Guardiões do Darma. Guardiões do Dharma em várias escolas budistas recebem veneração, culto, devoção, etc.

A pergunta que tem de guiar a nossa atitude diante dessas questões poderia ser: os Theoi reconhecidos por esta escola budista deixaram de ser reconhecidos como dharmapalas  e/ou bodhisattvas depois que tal escola deixou de ‘existir’ em um sentido muito próprio e específico? A descontinuidade histórica implica necessariamente sua inexistência em qualquer outro sentido possível e, portanto, o rei dos Deuses Olimpianos não é mais guardião/protetor do Buddha?

Assim, se alguém pratica Budismo Mahayana, então, alguém não pode ser visto de modo estranho pela veneração de algumas Deidades de Ghandara em função de ser Mahayana; ou seja, se alguém quiser dizer que seria estranho alguém venerar os Theoi, não pode ser por ser Mahayana – outrossim, por qualquer outra razão. Então, de certo modo, é possível dizer que do ponto de vista da história Mahayana alguns Deuses Gregos são reconhecidos e/ou caracterizados como Bodisattvas.

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