Reencarnação e “Eternidade” do Mundo: crenças comuns entre Budistas e Helênicos

Nós podemos,  tranquilamente, estabelecer algumas crenças comuns, uma espécie de “core” comum, entre budistas e helênicos. Esse núcleo comum é formado por duas crenças fundamentais:

  1. A crença em reencarnação.
  2. A crença no ciclo cósmico sem início/fim do universo (ou universos).

Se alguém acredita em reencarnação e no ciclo sem início e sem fim do cosmo, então, alguém tem, em algum sentido, duas crenças comuns com o budismo. Essas duas crenças não são disputáveis no budismo, é algo muito bem estabelecido no Mahayana, e nas escolas “pós-mahayana”: no Zen, no Shin, no Shingo e nas escolas Tibetanas.

Neste corpo de crenças, o cosmo sempre existiu e sempre irá existir em ciclos; os seres que não alcançaram a “liberação definitiva” irão continuar renascendo até o fim de um ciclo e, continuarão assim no início do próximo ciclo enquanto não alcançarem liberação definitiva do Saṃsāra (para detalhes sobre esse processo, procure o livro “Buddhist Cosmology” do Akira Sadakata). — A gramática do próprio termo Saṃsāra também está relacionada em algum sentido com a gramática do termo “ciclo”.

Muitos helenos têm crenças semelhantes. Na verdade, é estranho que alguém se considere helênico e rejeite a ideia de “reencarnação”. A alternativa mais viável para o helênico moderno, que não acredita em reencarnação, é fazer como alguns membros da religião olimpiana faziam: o homem é um ser mortal e há alguns casos raros de seres que se tornam “heróis”: — já a maioria irá definitivamente deixar de existir; embora, haja uma disputa sobre o que seja a natureza do “eco dos que morreram” no reino de Hades.

Os exemplos clássicos de helênicos que acreditavam em reencarnação eram os pitagóricos, platônicos e neoplatônicos. A crença na ideia de reencarnação é uma das coisas que podemos alegar com bastante certeza que os pitagóricos tinham.

Pythagoras was famous (1) as an expert on the fate of the soul after death, who thought that the soul was immortal and went through a series of reincarnations; (2) as an expert on religious ritual; (3) as a wonder-worker who had a thigh of gold and who could be two places at the same time; (4) as the founder of a strict way of life that emphasized dietary restrictions, religious ritual and rigorous self discipline. (Fonte)

Essa crença é confirmada entre os neoplatônicos:

[…]the fragment shows that Pythagoras believed in metempsychosis or reincarnation, according to which human souls were reborn into other animals after death. This early evidence is emphatically confirmed by Dicaearchus in the fourth century, who first comments on the difficulty of determining what Pythagoras taught and then asserts that his most recognized doctrines were “that the soul is immortal and that it transmigrates into other kinds of animals” (Porphyry, VP 19). (Fonte)

Diferente dos Budistas, Pitagóricos e Neoplatônicos utilizavam a ideia de “alma” para explicar a reencarnação. Os Budistas falam de corpos mais sutis que o nosso corpo biológico mais grosseiro até o nível mais sutil de todos que culminaria, por exemplo, na Alaya Consciência — tal como entendem alguns Yogacharins. A Sua Santidade  Dalai Lama fala um pouco sobre reencarnação em um vídeo sobre a difícil noção de “não-self”:

Assim: a parte mais sutil da mente de um ser não possui nem começo e nem fim e, permanece renascendo até alcançar liberação definitiva.

A crença na reencarnação permeia todo o pensamento neoplatônico e é simplesmente absurda a ideia de que se trata de uma “mera” simbologia como alguém poderia alegar. O leitor pode encontrar no livro “Philosophy and Salvation in Greek Religion” uma coletânea de artigos sobre essa temática de vários especialistas em pensamento grego. Nesse livro há, por exemplo, o artigo de John Bussanich, intitulado “Rebirth Eschatology in Plato and Plotinus”. Nesse artigo não é difícil de verificar que, apesar das possíveis diferentes interpretações, a crença em reencarnação em Platão e Plotino é indisputável. Também no livro chamado “Karma and Rebirth: A Cross Cultural Study” é possível encontrar um estudo sério de semelhanças não apenas da doutrina da reencarnação como também da doutrina do carma.

Uma vez que a crença em “reencarnação” é muito mais comum nas religiões não-abraâmicas do que geralmente alguém possa pensar, é razoável pensar que alguém que não creia em reencarnação está mais próximo dos cristãos do que um espírita.

No que diz respeito a crença na “infinitude temporal do cosmo”, Proclo discutiu, com uma boa quantidade de argumentos, a crença na eternidade do mundo em seu livro “On the eternity of the world“. Quanto aos Budistas, a crença na “infinitude” do mundo é algo definitório da sua cosmologia; o cosmo não apenas sempre existiu e sempre existirá como também há um número infinito de “sistemas de mundo” se dissolvendo e se integrando novamente ad infinitum: isso tudo compõe, em certo sentido, uma visão do que seja Saṃsāra. Dessa perspectiva, é estranha a ideia de um declínio “apocalíptico absoluto” do mundo que se manifesta em níveis políticos, sociais e cósmicos; como também não há algo como um “declínio temporal” no sentido de que “houve uma época no Saṃsāra que a coisa era incrivelmente melhor”: é apenas o “mesmo” Saṃsāra manifestando de vários modos.

Por exemplo, no Avatamsaka Sutra é dito:

observe the infinity of lands in the ten directions, the infnity of beings, and the infnite differentiations of phenomena  (Avatamsaka Sutra)

O número de trechos no Avatamsaka parecidos com este é muito grande. Além da ênfase no número infinito de Budas e seres sencientes, há também uma grande ênfase no número infinito de terras, universos, etc. Deixo uma outra citação do Avatamsaka Sutra que soa muito bela e que confirma aqui alguns pontos [brevemente] mencionados:

All buddhas can, in a single instant, appear to descend from heaven in infinite worlds. All buddhas can, in a single instant, manifest birth as enlightening beings in infnite worlds. All buddhas can, in a single instant, manifest renunciation of the mundane and study of the way to liberation in infinite worlds. All buddhas can, in a single instant, manifest attainment of true enlightenment under enlightenment trees in infinite worlds. All buddhas can, in a single instant, manifest turning the wheel of the Teaching in infinite worlds. All buddhas can, in a single instant, manifest education of sentient beings and service of the enlightened in infinite worlds. All buddhas can, in a single instant, manifest untold variety of buddha-bodies in infinite worlds. All buddhas can, in a single instant, manifest all kinds of adornments in infinite worlds, innumerable adornments, the freedoms of the enlightened, and the treasury of omniscience. All buddhas can, in a single instant, manifest countless pure beings in infinite worlds. All buddhas can, in a single instant, manifest the buddhas of past, present, and future in infinite worlds, with various faculties and characters, various energies, and various practical understandings, attaining true enlightenment in the past, present, and future. (Avatamsaka Sutra)

Em certo sentido, é possível dizer que tanto no pitagorismo, platonismo e neoplatonismo (neopitagóricos também), quanto no budismo, a ideia de ciclo cósmicos infinitos e reencarnação possuem uma relação muito forte: o que acontece em um nível (do Saṃsāra), em certo sentido, acontece em todos. Por exemplo, no Avatamsaka Sutra: mesmo na menor partícula conhecida é possível uma infinidade de mundos e seres, inclusive Budas, Deuses, Grandes Deuses, etc. A ideia de que há uma “menor partícula conhecida” é radicalmente relativa, uma vez que mesmo lá poderiam habitar uma infinidade de seres sencientes, mundos e Budas. Ora, o ponto todo do espírito do Avatamsaka é mostrar algum elo entre a situação samsārica dos seres que não alcançaram o estado de Buda e a situação do cosmos: que também se repete em ciclos infinitamente. Assim, a ideia de um cosmo em que isso não seja possível é absurda para o budismo e, em certo sentido, também é absurda para vários helênicos.

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